terça-feira, 24 de abril de 2012

Dois posts num ano? Será?

Volta e meia alguém diz: por que você não escreve mais? Eu sempre acho que a pessoa está falando desse blog, que vive num estado comatoso e às vezes mexe uma sobrancelha, tem um espamo no dedinho do pé e enche a todos de esperança. A verdade pura e simples é que eu ando sem tempo. Não pra escrever, porque cá para nós escrever não toma tempo. E nem quero dar uma de erudito-coolto, "o que demora é editar". Escrever num blog que ninguém lê é mole e não dói. Eu ando sem tempo é para a encheção de linguiça que é a internet. A quantidade desesperada de posts, fotos, tuítes, tudo gritando "EU", "NÃO, EU POR FAVOR!" numa briga por atenção que parece a daqueles vira-latas para adoção que tem no Embu. Não estou no facebook, nem no Instagram tirando auto-fotos. E quase não estou por aqui. Porque se me irrita, não vou colaborar com a grita. Mas às vezes - cada vez menos, confesso - tenho vontade de entrar aqui e desabafar um pouco. Aí se tem um comentário, eu até tenho vontade de retomar. Me prometo retomar, até o próximo conhecido divulgar onde está e com quem, para eu perder a vontade novamente. Como se a vontade inflasse e depois fosse esmagada, igual que nem fole de acordeão. Ah sim: também não tenho escrito porque ouvir Chico Buarque me faz repensar minhas palavrinhas chinfrins.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

1 post por ano?

Blogs caíram de moda tão rápido que eu esqueci desse meu. E pensar que eu metia o pau no twitter, nunca entendi o facebook e ria de quem usava calça saruel. O que sera que aconteceu comigo? Nesse último ano, 1 único post. Ainda por cima escrevendo com algarismo ao invés de por extenso. Isso não: um único post em 2011. Amanhã faria um ano que eu não atualizava meu moribundo blog e isso não pode ficar assim.

Ainda mais agora, que eu ando feliz, recebendo e dando sorrisos como se fosse uma modelo no stand do Salão do Automóvel. Eu estou amando todo mundo. E melhor, estou me sentindo amável.

É um pouco tarde para desejar Feliz 2012. Mas é o que eu desejo, para mim e para quem estiver lendo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Personal trainer.

O personal manda um sms: "Tudo bem? Vc chegou a fazer o deposito? Nao estou encontrando aqui. Abs".

Ao que eu, cheio de gracinha, respondi: Fiz sim, na sexta. Depositei na sua poupança, você não sentiu?

Ele responde: "Encontrei aqui, obrigado".

Então me dou conta do quanto estou fodido na aula de amanhã.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Galerinha do Surf.

Eu alugo casa na praia com outros três búfalos.

Um dos búfalos é o alfa que traz para casa fêmeas de todo tipo. Enfim, a casa é maravilhosa, num condomínio de übber-ricos ultracaretas. Por estar em mal estado, inacabada desde a década de 80 e precisando de reformas sinceras, nossa casa é acessível para nossos bolsos, um tremendo achado. Somos os únicos que alugam, os demais são todos proprietários. Portanto não é difícil responder sorrindo aos cumprimentos contidos de nossos sempre bem-vestidos colegas de muro, ao darem de cara com as nossas bermudas velhas e pranchas molhadas: ali nós somos os hippies.

Numa festa de aniversário que aconteceu na casa teve DJ e queima de fogos. Quase deu polícia, deu uma cachoeira de reclamação, culminando com os vizinhos da frente entrando no carro e subindo a serra num sábado à meia-noite, tão incomodados com a nossa folia. Minha cachorra Olga, que em vez de hippie é uma skinhead, foi proibida de pôr as patas no condomínio por comportamento inadequado.

Eis que um dia, voltando da praia, encontramos um bilhetinho de criança sobre a mesa, já que na nossa casa a mesa fica do lado de fora: a sala de jantar tem uma mesa de sinuca. O bilhetinho, com aquela letrinha irresistível, dizia:

Galerinha do Surf e mulheres.
Venham na inauguração do restaurante de Camburi
melhor comida saladinhas. Por favor venham.

A garotinha do vizinho da frente havia arrumado uma mesa e estava ali brincando de restaurante. Deu para ver os pratinhos de plástico com grama e folhas fingindo de salada, copinhos e talheres de brinquedo. Entre uma cerveja e outra, quase aceitei o convite. Mas não.

Porque me veio a imagem dos pais da garotinha apontando para a nossa casa, a cada vez que a música alta ou as risadas ou o cheiro de fumaça ilegal atrapalha o fim de semana deles: é a "galerinha do surf".

terça-feira, 6 de julho de 2010

A culpa é do twitter.

Tem uma carta do Mário de Andrade, acho, que termina assim: "desculpe pelo tamanho da carta. Se tivesse tempo, teria escrito menos."

O Twitter, com sua obrigatoriedade de 140 toques, nos faz concisos, objetivos, e torna-se um desafio semi-literário não perder o raciocínio tendo que escrever tão pouco. Tenho alguns amigos que se tornaram craques - não por acaso trabalham em propaganda, onde o menor texto geralmente é o melhor texto.

Mas o ponto é que com o Twitter, eu comprimo tanto o pensamento que termino cada quadradinho daqueles exausto. Não sobra nada para escrever aqui. Sem falar que imagino uma pessoa, ao escolher onde perder os 5 minutos relativos ao cafezinho que acabou de buscar na máquina, opte pela variedade que só o Twitter proporciona. Eu ontem passei muitos cafezinhos lendo o blog de uma menina que vive no Canadá que eu conheci via Twitter. Textos deliciosos, sobre o assunto atual dela, que é viver no Canadá.

Mas aquele não é, como este, um blog sobre a esquizofrenia de um indivíduo. Sobre a loucura de tentar viver disfarçado entre as pessoas, ocultando sua identidade real de búfalo e quadrúpede, tentando esconder dos outros a perplexidade, o espanto, o medo a respeito de tanta coisa incompreensível que acontece ao meu redor.

Escrever no Twitter, com toda a escassez de espaço, acaba sendo muito mais libertador que um blog onde não há limite nenhum.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Desde 70 o Brasil estreia mal em Copas.

Ok, ok, a Coreia do Norte é uma merda.
Mas numa análise retroativa, o jogo ruim de terça não significa nada.
Em 70, tudo bem, goleada de 4x1.

Mas olha aí:

74: 0x0 contra a Iugoslávia;
78: 1x1 contra a Suécia;
82: 2x1 contra a URSS, sendo que 2 pênaltis para os soviéticos não foram marcados;
86: 1x0 contra a Espanha, com gol impedido do Doutor e gol legítimo da Espanha anulado (bola que bateu no travessão e dentro do gol, lembra?);
90: 2x1 contra a Suécia;
94: 2x0 contra a Rússia, com um gol de pênalti.
98: 2x1 contra a Escócia, com um gol contra e uma bola desviada com a mão pelo Dunga;
02: 2x1 contra a Turquia, roubalheira a favor do Brasil;
E, por fim, 06: 1x0 contra a Croácia.

Não serve para nenhum prognóstico, mas confirma que a Seleção sempre sente o peso da camisa no primeiro jogo. E que isso é normal, porque 5 estrelas pesam mesmo.

domingo, 6 de junho de 2010

6 de Junho. Dia D.

Foi o dia em que mudaram o rumo da Segunda Guerra Mundial, com o desembarque na Normandia.

Foi o dia em que eu, dias depois de ter descoberto que tinha câncer, operei.

Renasci, um pouco menos esperançoso e um pouco menos inocente que da primeira vez. Se imagina que passar por isso torna a pessoa mais tolerante e mais feliz, por ter sua segunda chance.

O mundo também renasceu num 6 de Junho, já que ali se definiu que a ameaça nazista não teria chance de se espalhar, como metástases, por outros continentes. Foi uma intervenção cirúrgica precisa e definitiva, como foi a minha.

O mundo não se tornou mais tolerante e feliz por essa segunda chance. Não é o que acontece.

Junto com o susto e com o medo, vem o pragmatismo de quem acorda. De repente você não acha mais que sua vida daria um filme, que você é um personagem querido de Deus, ou essas coisas. Você descobre que as coisas dão errado sim, contra a sua vontade, e que muitas vezes não é uma questão de atitude para que elas voltem a dar certo.

É só acaso. Por acaso as coisas podem voltar ao lugar, a vida pode seguir, e se pode voltar a ser feliz. Apesar de se ter perdido a inocência.

Apesar disso, em 6 de Junho, me sinto agradecido por estar aqui. Assim como o resto do mundo deve estar.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A maior solidão da minha vida.



Nessa época de Copa, além de xingar o técnico da Seleção seja ele quem for, somos forçados ao velho balanço das competições passadas. É o típico assunto contagioso, como quando alguém fala do assalto que sofreu ou de uma batida de carro, e os que estão ao redor contam dos seus assaltos e batidas e por aí vai.

Assunto Copa geralmente começa com a de 82. É impressionante para mim a clareza de detalhes dos relatos sobre aquela Seleção, a melhor e mais injustiçada da história. Além de revelar a idade de quem conta, a Copa de 82 é cheia de memórias doloridas e vívidas: o cara vendo o pai chorar, aquele menino na capa do JT. Eu lembro que saí da casa do meu tio onde assistíamos ao fracasso, o churrasco queimando esquecido na churrasqueira, e que a casa vizinha estava em reforma. Monte de areia na calçada, e três fileiras de telhas de barro escoradas no muro. Chutei uma por uma, elas se quebravam com facilidade. Aí meu pai me tocou no ombro - tocou, com delicadeza, veja bem. Me viu ali vandalizando as telhas do vizinho como um hooligan inglês, e reagiu me chamando para entrar no carro e irmos embora.

Foi o segundo momento de maior solidão da minha vida, quebrado pelo toque e pela inédita compreensão do meu pai.

O momento só do título do post foi em 94. Depois de 82 e as três Copas seguintes, ninguém mais acreditava que o Brasil seria campeão novamente. Raí? Dunga? Jogador Zinho? Eis que o Baggio corre para a bola, e isola. Eu nem vi direito o que aconteceu. Levantei correndo da sala, em direção à rua, para avisar a todo mundo que aquele merda toda tinha finalmente acabado.

A porta de madeira que dá acesso à rua se fechou atrás de mim, e eu me espantei com o silêncio lá fora. Na rua não havia sinal de Tetra. Dentro das casas o Brasil inteiro devia estar se abraçando, chorando, tendo infartos. Mas na rua se ouvia o som de fogos e de gritos abafados por paredes. Eu estava sozinho. E sem chave para abrir a porta e voltar para dentro da casa.

Toquei a campainha freneticamente, desesperadamente só. Só depois de 10 minutos alguém escutou e veio abrir.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Morreu o cachorro do Seu Chico.

Meu vizinho de 60 anos tinha um lindo labrador preto, Tufão, que de tão doente precisou ser sacrificado.
O encontrei na rua, ele me deu a notícia entre lágrimas discretas. No cachorro anterior a esse, faz 11 anos, ele havia se prometido nunca mais ter cachorro.
A gente se apega muito ao bicho, depois sofre - me dizia ele.
Eu só consegui pensar no jogo do Corinthians amanhã. Em quantas e quantas mortes eu me prometi não me apegar mais, não perder mais meu tempo com uma idiotice dessas. Futebol? Que importa o futebol?
Aí me dou conta que o Corinthians é a única maioria na vida da qual eu faço parte. Eu torço pelo time, mas muito mais pela torcida. Quero ver os meus manos corintianos felizes, orgulhosos. Crentes refeitos, já que mais uma vez puderam comprovar que a sua fé move montanhas. E, excepcionalmente neste caso, deixarei passar a piada com o tamanho do Ronaldo.
Desejo que o Corinthians garanta a seu Chico um resto de semana feliz. E que o próximo cachorro dele se chame Dentinho.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por que Ronaldo não pede para sair?


Já li em muitas partes e ouvi de muita gente que os interesses financeiros é que mandam. Mas está claro que não se trata disso. Porque o contrato já está firmado e pago, os comerciais já estão filmados. Se ele estivesse só cumprindo compromissos comerciais, como querem acreditar alguns jornalistas e alguns dos meus amigos, por que ele faria cara feia ao ser substituído? Porque ele faz. Fica indignado.

Ronaldo exige ser titular. E eu fico me perguntando o que leva esse cara a desejar passar a vergonha que ele tem passado. Entrar em campo para ser marcado por zagueiros 10 anos mais jovens e 30 quilos mais leves. Que genialidade é essa que ele pensa ter? A de ser o Muhammad Ali?

Eu vi nessa semana o documentário Facing Ali, e é curioso que sim, Ronaldo parece seguir seus passos. Como Ali X Foreman, Ronaldo sabota seu próprio treinamento, inexplicavelmente, tentando conhecer um novo limite para si próprio. Fuma, bebe e come mais do que seria aceitável para um pedreiro, quanto menos para um atleta de ofício. Deixa tudo para o final, aceitando todos os golpes durante toda a luta, e surpreendendo o público no final, com um ataque certeiro.

Será? Será que podemos estar por testemunhar uma das mais espetaculares vitórias pessoais da história, que seria mais um volta por cima deste sujeito inexplicável?

Ou isso, ou o Ronaldo vai deixar mais uma pergunta sem resposta na sua biografia. A se juntar às já esquecidas sobre a final de 98, às relacionadas aos travestis, a nova: o que diabos você veio fazer no Corinthians?

domingo, 11 de abril de 2010

Sorte de milionário.

Eu não sou do tipo que joga na Megasena porque tenho medo de ganhar. Veja, o dinheiro só resolve os seus problemas anteriores, de quando você precisava dele. Possuindo-o em tamanha quantidade imagine o tipo de problemas que você passa a enfrentar. Escuto no rádio sobre o paranaense que levou sozinho o prêmio de mais de 40 milhões, que a partir de agora terá que se preocupar consigo, com a família, com os amigos, com os parentes, com os inimigos e com os parentes. Terá de cumprir a difícil função de ser milionário.

Por isso não jogo mais, para não sofrer por antecipação. Já joguei e ao rabiscar aquele canhotinho na casa lotérica me senti perigosamente próximo de descobrir um segredo, uma combinação metafísica cabalística, enfim, algo importante demais para ser resolvido bovinamente, ao término de uma ridícula fila.

Lembro que nesse dia encontrei no balcão um canhoto já preenchido. Comentei com um amigo que seria injustiça para a pessoa que escolheu aqueles números dividir o prêmio comigo. Imediatamente um supersticioso tomou o papel da minha mão e apostou naquele jogo, me olhando como se eu fosse um legítimo idiota.

Sei de um outro sujeito que em casos de prêmios exorbitantes aposta sempre duas vezes com os mesmos números. Se tiver que dividir com mais gente, lhe caberão duas partes do bolo. Espantoso, e ao mesmo tempo cretino, porque a sorte nunca vai premiar alguém tão ambicioso.

Assim como nunca vai premiar aqueles outros que cismam em jogar números que têm relação com a vida pessoal, como datas de nascimento. Se a chance de você acertar aleatoriamente 6 entre 60 números é infinitamente remota, imagine pretender que cada um desses números corresponda a um ente querido?

Pensando nisso tudo, e no tal paranaense que amanhã irá a Caixa Econômica receber seus milhões, eu não registro bem a sequência dos números sorteados dita pelo rádio. Mas algo me deixa inquieto. Correndo ao site da Caixa, eles estão lá.

01 11 14 23 42 48. Sobressalto.

Porque meu pai faz aniversário num dia 01.

Eu, em Novembro, mês 11.

Minha irmã mais velha, em janeiro, dia 14.

Minha mãe nasceu em 42

Novamente meu pai, nasceu em 48.

Faltaria somente o 23, mas a irmã que nasceu no dia 14 está terminalmente grávida, e eu já não tenho dúvida sobre o dia do mês em que chegará o bebê.

Termino este texto sorrindo. Por ter escapado de ficar milionário e por ter decidido não descobrir quanto pagou a quina.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Chat Roulette, uma invenção do caralho.



Eu ouvi falar do Chat Roulette por causa deste vídeo. Fiquei curioso e finalmente arranjei um tempo para descobrir o que é o Chat Roulette: uma sala de bate-papo com pessoas escolhidas ao acaso, via webcam. Você se conecta, liga sua câmera, e conversa com quem quer que surja do outro lado. Se você não quiser conversar, clica em NEXT e aparece uma nova pessoa.

Tem uma regrinha: se você for NEXTED mais de 5 vezes em 10 minutos, você fica bloqueado por 10 minutos porque está fazendo algo errado. Por isso, é uma espécie de jogo, eles chamam assim. Não é "start a conversation", é "New game".

Me pareceu uma invenção fantástica - você pode conversar com alguém de algum lugar absolutamente distante e improvável. Onde já seja dia enquanto aqui é noite. E olhando na cara da pessoa, o desconforto de ter que puxar papo com um desconhecido, mas do conforto do seu lar. Podendo dar "Next" e fazer aquele desconhecido sumir.

Serve para alguma coisa de útil? Sei lá, pensei. Mas o Twitter patinou até se tornar útil, talvez isso seja o próximo fenômeno, vamos clicar em New game... Aparece uma caceta na tela. Hein? É. O sujeito, ao descobrir essa invenção fantástica ainda sem utilidade prática, achou uma boa idéia sacar o pau para fora da calça e mostrá-lo ao mundo.

Next, enojado pelo pinto e pelo pervertido. E... outra caceta. Next. Outra caceta. Next... imagem ruim, nublada e pixelizada. Lentamente, começo a entender: opa, uma pessoa... Uma barriga... Eita, é outra caceta.

Passei 30 minutos buscando conversar com alguém. Me senti um faxineiro de vestiário de academia, porque devo ter visto umas 60 cacetas. Conversei com um casal de Michigan, que perguntou minha música favorita dos Beatles, me mostrou seu gato de estimação. Mas aí nos despedimos, eu insisti em tentar mais alguma conversa. Mas não. Só caralhos.

Ao se verem no centro das atenções, e protegidos pela distância (de uma grade ou de uma webcam), 8 entre 10 homens do mundo respondem mostrando a genitália no Chat Roulette.

É triste, porque mostra o quanto nossa capacidade intelectual de humanos é incompatível com os nossos instintos primários, que não evoluíram na mesma proporção. Diante do desconhecido, quando você não tem nada para dizer, mostre o pau.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Homem-aranha no cruzamento.

As vezes eu entro aqui, anoto uma frase, e salvo como rascunho. A intenção é voltar outra hora, com mais tempo e um mínimo de inspiração, para transformar a anotação em texto. Na maioria das vezes, eu não volto nunca. E em muitas delas, eu encontro coisas absolutamente incompreensíveis. Como essa, que anotei no dia 15 de outubro:

Homem-aranha no cruzamento

Não tenho ideia de que diabos estava falando. Duvido que tenha visto a cena, alguém com uma fantasia na rua, por mais esquisita que seja essa cidade.

Me lembra "O Segredo dos Seus Olhos", quando o personagem principal, escritor, acorda de noite e anota algo num caderninho - dizem que é isso que escritores devem fazer. Somente para conferir na manhã seguinte que anotou a palavra "TEMO". Temor é tudo que nós na plateia estamos sentindo, com a história que se desenrola na tela, faz todo o sentido, a ponto de ser retomado mais tarde pela personagem da divina Soledad Villamil, que vê o caderninho e pergunta "O que você teme, Benjamin?".

Perdão a você que viu o filme e não me vê chegar logo ao ponto. Mas pode ser que o outro ali não tenha visto. Também, outra coisa, muita gente que viu o filme não pegou a certa nuance que eu estou para contar. Seguimos.

O Benjamin responde que nada, que foi somente algo que anotou para retomar mais tarde, provavelmente não. E, no fim (ufa, chegou) o Benjamin descobre que, assim como sua máquina de escrever defeituosa não escreve a letra A, ele se havia esquecido do A. "TEMO" era na verdade "TE aMO", e ele decide ficar com a Soledad. Talvez um pouco forçado, mas vá lá, boa sacada.

Muito melhor que "homem-aranha no cruzamento". Pelo menos funcionou e a frase anotada afinal virou texto.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Vazamento.

Seis meses morando no apartamento novo, que foi inteiramente reformado, e começa o vazamento no banheiro.

O Valdir que fez a obra volta à ribalta. Determina que aqui, ó, e só aqui, pode estar o problema. Quatro horas mais tarde, com o piso inteiramente destruído, ele vaticina:

- Rapaz, só pode ser na outra parede, só.

Ao destruir o contra-piso (que é o cimento abaixo das lajotas de cerâmica que já não existem), descobri que onde normalmente existe uma laje de concreto, há um sanduíche de duas placas de cimento recheado com 30 centímetros de terra. Terra mesmo, de jardim, coisa de prédio antigo. Bom, porque é menas quebradeira, ele me diz.

Olho para a marreta. Olho para o vão livre entre as placas de cimento e para a terra retirada, que se esparrama pelo corredor. Vejo minha mão acertar o Valdir com a marreta e ocultar seu corpo no vão, coberto de terra, de cimento e de vingança.

Seria o crime perfeito. Mas a porra do vazamento continuaria.

Homem que tem filho.

Quando um homem que tem filho começa um novo relacionamento, a nova mulher tem que aceitar condições.

Tem que entender que o homem vai dedicar todo tempo possível do fim de semana ao filho. Tem que abrir mão de algumas coisas por causa de um amor que ela não compartilha, e se há uma coisa que mulher gosta de sentir nessas horas é ciúme.

O homem acorda cedo no fim de semana, pega estrada, engarrafamento, para ver o menino por algumas horas. Com ele, o homem perde a noção do tempo. E perde dinheiro, torra dinheiro com brinquedos e viagens e todo tipo de exageros. No fim de um dia de dedicação, o homem está lá com uma cara de besta, sorridente e exausto.

Como não encontrou o garoto no fim de semana passado, o homem ficou deprimido. É como se lhe tivessem tirado um pedaço, e a semana teve cinquenta intermináveis dias, porque o homem ficou contando os minutos até o próximo longínquo sábado, quando encontraria o menino.

A mulher faz força para não se irritar. Ela luta para não chamar o homem de egoísta, e disfarça a careta toda vez que olha para o lado e vê os ombros caídos do homem, que responde tudo com um fiapo de voz. É um paradoxo: naquele fim de semana sem o filho, que seria só dela, o homem estava um trapo. E nesse de agora, quando terá o filho, o homem estará imensamente feliz, mas não será inteirinho dela, ao menos por algumas horas.

Esse vai ser o meu discurso de hoje à noite. Porque o meu filho é o surf, e o fim de semana promete.

Olhando pelo lado bom: ele ao menos não é filho de nenhuma ex.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Jovem ou velho?

Acabei de ler uma matéria sobre o Ron Wood, um dos mais enrugados Rolling Stones.

Duas coisas me chamaram a atenção: ele ter largado a esposa de décadas para ficar com uma garçonete russa de 18 anos.

E mais ainda, ele ter ficado a cara daquelas velhas de teste psicológico, sabe?

Você olha para a cara dele velho e vê uma jovem.





quarta-feira, 24 de março de 2010

Olga.


Hoje faz 4 meses que eu tenho a Olga, uma vira-lata de muita raça que resgatei, já adulta, da indigência. Um olhar foi o bastante para eu decidir cometer um dos maiores erros da minha vida, bagunçar completamente meu apartamento e a minha rotina.
Passei a ter a obrigação de acordar muito mais cedo, e a de não voltar muito tarde para casa. Eletrodomésticos da cozinha foram destruídos, como também coisas sem valor material mas muito do geralmente oposto valor sentimental: guia de ondas da Indonésia, estatueta de madeira do Chile, a rolha do vinho que eu abri para comemorar a assinatura do contrato do apartamento.
Mas após esses 120 dias dias de convivência, as surpresas negativas diminuíram. E eu já não consigo conter o orgulho quando ela senta, ao meu comando. Ou permanece imóvel, me olhando desesperadamente através da porta aberta, enquanto eu me afasto dizendo "fica... fica... fica...". Acredite: poucas coisas são mais gratificantes do que dizer "vem" depois.
Estávamos caminhando um dia desses, é delicioso ouvir os elogios que ela recebe por ser tão bonita, ter uma cara tão feliz. Às vezes é particularmente bom, quando eu consigo que ela sente para receber os elogios, que então transbordam. Ela, que afinal é menina, adora. Como me adora, incondicionalmente, seguindo cada um dos meus passos e respondendo, com uma balançada de rabo, a qualquer olhar meu lançado em sua direção.
Talvez a Olga venha a ser a fêmea que mais me amou no mundo.

domingo, 21 de março de 2010

Deus castiga.

Eu ganhei um celular da firma. Fui aconselhado por todos a descartar o meu particular e a usar o chip desse celular no meu glorioso iPhone.

É feio, né? A firma vai pagar todas as minhas ligações?

Aí o cara do CPD ficou me olhando por alguns segundos, e continuou: Bom, você vai ter que desbloquear o iPhone primeiro.

Sequer registrou meu pequeno soluço ético. E prosseguiu: Entra nesse site, segue a explicação da tela, e depois é só usar o chip. Moleza.

Entrei. Segui. Meu iPhone travou com uma mensagem horrível. Restore to factory settings.

Eu perdi tudo. Contatos, músicas, telefones, emails.

E pior, não anotei o número do celular da firma.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Cerro Porteño 0 X 1 Mano Menezes.

O jogo de ontem não chegou a me irritar, como bem disse o Casagrande num determinado momento. Me parece que o Mano está seguindo a cartilha do Parreira em 94: existe jogar para ganhar e existe ganhar. A seleção de 82, assim como o Corinthians de 99 na Libertadores (não comparando os times, mas o espírito), jogava para ganhar. E aí o imponderável do futebol cresce, em catimbas, crises nervosas, erros imperdoáveis e fatais como aquela bola do Cerezo ou o pênalti para fora do Marcelinho.

O que me acalmou, apesar da chatice do jogo, foi o cuidado dos jogadores corintianos em não entrar no clima dos paraguaios. O Timão estava roubando a bola com a delicadeza de quem come um sashimi. Estava desarmando com hashis. Foi isso que trancou o jogo, especialmente no meio-campo defensivo mais eficiente que eu vi nos últimos anos: Jucilei, Elias, Ralf. Por ali os paraguaios não passaram nem com muamba.

Lembro de várias entrevistas no ano passado, em que o técnico avisava: vai ser chato, não vai ser jogo bonito, mas vai ser como tem que ser na Libertadores. Ele estabeleceu a meta de 3 pontos fora de casa, já ganhamos quatro. E agora decidiremos no Pacaembu.

E o Gordo? Não me parece que está se importando com a opinião da imprensa e da torcida. Ele fica parado de um lado, feito uma geladeira, 3 zagueiros passam o jogo tentando rodeá-lo, e o Danilo, o Dentinho, o Elias, e até o Jucilei ficam livres. Se os 3 últimos tivessem acertado a finalização, teria sido goleada. Sem dúvida o Ronaldo segue acima do peso e fora de forma. Na entrevista do intervalo ele quase não conseguiu falar com o Mauro Naves por falta de fôlego. Embaraçoso.

Mas estou sentindo firmeza no Mano.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Idéias que eu preciso patentear, número 45.

Absolut Hand Gel®.

Gel para limpar as mãos feito de vodka Absolut.

No formato da garrafa tradicional, mas com uma tampa bem sacada, pump. Você passa na mão, esfrega, e fica livre da gripe suína. Aí esguicha umas 5 vezes na boca e fica livre da monotonia.