Não consigo escrever nada, não consigo concatenar mais do que 5 linhas desde que o espinho apareceu na minha pata. Tento me concentrar, mas a minha cabeça caminha em 12 direções diferentes. E eu me sinto escrevendo uma redação de vestibular, confundindo temas. Relacione a fome na África, a Tomatina na Espanha e o Bolo do Bixiga, sei lá, por aí vai. Penso no espinho, que saiu mas às vezes parece que continua lá, como um pressentimento. Não dói quase nada, eu já caminho normalmente e quem me vê não imagina que eu possa ter sofrido e continue sofrendo por causa de um negocinho de um centímetro que mal se via.
É que eu não consigo entender como o espinho surgiu, para começo de conversa. Eu não senti nada. Não andei em locais espinhosos. Nunca fumei (búfalos que fumam têm maior incidência de espinhos nas patas). E ninguém pode me garantir que eu não vá pisar novamente em outro espinho e que esse se aloje na minha pata e tudo comece outra vez. Escrever com isso na cabeça é torturante, porque é o único assunto no qual eu consigo colocar foco. Bom, vou continuar tentando, apesar dos 34 rascunhos já salvos que não deram em nada. É como eu espero que termine o espinho, dando em nada.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
terça-feira, 10 de junho de 2008
A Lei Dunga.
Quando a Seleção pagou o mico dos micos contra a França em 2006, chegamos à conclusão que as estrelas do futebol precisavam de vergonha na cara. Talvez também de umas bolachas na cara, e para isso chamaram Dunga (com quem todo mundo concordou na época). Aí ele ganhou a Copa América de maneira surpreendente, com direito a golaço do Júlio Batista (que é volante mas estava de atacante para ódio de muitos). Não faltou gente para elogiar e para esquecer de tudo que se sabia antes: Dunga é despreparado, cabeça dura e rancoroso, características que atrapalham muito no cargo. Agora que começou a fase complicada e essas características estão visíveis a quilômetros de distância, ninguém mais se lembra da Copa América.A Lei Seca, assunto da vez, me faz pensar no Dunga. É preciso reduzir as mortes no trânsito, como era preciso fazer a Seleção ganhar. E faltava motivação aos jogadores, assim como falta consciência para as pessoas não dirigirem depois de encher a cara. Mas aí o que o Brasil decide fazer? Cria uma restrição exagerada para o consumo de álcool, do mesmo jeito que criou um disciplinador exagerado para o cargo de técnico canarinho. Ou seja: a Lei Seca é igualzinha ao Dunga.
Começa com polêmica. Aí os bons resultados iniciais silenciam os críticos. Mas, com o tempo, as falhas começam a ficar evidentes, o país inteiro se revolta e daqui a pouco a solução que era de todos passa a ser a cretinice de alguns.
Evidente que ninguém quer ver gente morrendo no trânsito, e que isso é muito mais importante que os resultados da nossa equipe de futebol. Mas é irritante que uma questão fundamental como educação no trânsito seja tratada de maneira tão leviana, discutida com a mesma profundidade que se usa para preferir o Maicon que o Daniel Alves na lateral direita. Ficou nas mãos de PMs mal-treinados, com bafômetros que a Constituição nos desobriga baforar e funcionando na base da intimidação. E também é irritante que tanta gente informada e esclarecida continue fingindo que acredita que tudo está resolvido e que, por causa de multas altíssimas e ameaça de perder a carteira de habilitação ninguém mais vá beber antes de dirigir - no país que tem a Inbev e é o maior mercado mundial da Fiat e da Volkswagen.
A Lei Seca usa uma roupa tão ridícula como aquela do Dunga no jogo contra Portugal.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Ronaldo e os joelhos.

Os mais de mil leitores fiéis que acompanham este extravase de fúria que é meu blog se lembram quando Ronaldo esboçou uma volta por cima no Milan e eu previ que ía dar merda.
Mas nem mesmo um búfalo com poderes paranormais como eu poderia imaginar o tortuoso caminho pelo qual o Fenômeno iria enveredar.
Minha teoria: o gogó dos travecos era tão grande que, no estupor alcoólico do maior craque de nossa história recente, lhe pareceram joelhos. E ele, hipnotizado por articulações tão funcionais e hábeis, tão distintas das suas, se deixou levar até o point of no return.
Mas se não comeu, tudo está bem. Né?
quinta-feira, 20 de março de 2008
Traumas.

O Atari era vendido como diversão para a família. Na minha família, não. Meu pai tinha inveja do fato de eu jogar melhor que ele, ficava bravo de perder para mim. Uma vez arrancou um cartucho sem desligar o aparelho, jogou-o na parede. Lembro que a tela ficou cheia de riscos verticais de várias matizes de roxo, verde, cinza, e um zumbido estranho.
Já minha mãe só jogava Pacman. Até que se divertia, embora jogasse muito mal. Ela me convenceu a jogar fugindo dos fantasmas, pois comê-los despertaria neles uma invencível sede de vingança.
Até hoje fujo dos meus fantasmas.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Corinthiano sofre.
O morador chega com seu carrão que custou 170 salários mínimos ao portão que está quebrado. São duas da manhã e o vigia que ganha 1 salário mínimo tem que levantar de sua cadeira lá no fundão da garagem para vir abrir. São duas da manhã e o vigia, apesar de ganhar para vigiar, dorme o sono dos justos. O morador hesita. Desço ou buzino? Dilema burguês: são 2 da manhã, o vigia vai se assustar com a buzina, vai sair correndo na direção dos faróis acesos feito um morcego cego - imagina uma pupila dormindo ter que olhar para um farol às 2 da manhã? -, pedirá desculpa e terá medo de ser dedurado para o síndico porque estava dormindo. Custa descer e abrir eu mesmo? O morador desce e abre o portão. O vigia acorda e demora a entender o que se passa. Seus olhos estão ardendo, as pernas dormentes por causa da cadeira desconfortável. Ouve o som das portas do carrão sendo trancadas por controle remoto. Abriu o portão ele mesmo. Custava dar uma buzinada? E ainda apagou o farol, pra eu não acordar e ele poder me dedurar para o síndico, esse porra. Vai dizer que eu estava dormindo, e eu só estava distraído.
Morador: E o Coringão, hein? E o Acosta?
Vigia: Nem me fale... comeu a bola ano passado, agora não joga nada...
Morador: Ô fase, né?
Vigia: Ô...
Morador: Valeu, então. Boa noite...
Vigia: Boa noite...
Morador: E o Coringão, hein? E o Acosta?
Vigia: Nem me fale... comeu a bola ano passado, agora não joga nada...
Morador: Ô fase, né?
Vigia: Ô...
Morador: Valeu, então. Boa noite...
Vigia: Boa noite...
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Homofobia, capítulo XXVI.
Tem um colega no trabalho que é gay. Conversamos pouco, sempre de passagem pelo corredor. Ele me cumprimenta com um impessoal "Oba.". Apesar de ser um cumprimento neutro, muito me incomoda por uma questão de lógica: é um homem gay dizendo "Oba" toda vez que me vê.
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