O personal manda um sms: "Tudo bem? Vc chegou a fazer o deposito? Nao estou encontrando aqui. Abs".
Ao que eu, cheio de gracinha, respondi: Fiz sim, na sexta. Depositei na sua poupança, você não sentiu?
Ele responde: "Encontrei aqui, obrigado".
Então me dou conta do quanto estou fodido na aula de amanhã.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Galerinha do Surf.
Eu alugo casa na praia com outros três búfalos.
Um dos búfalos é o alfa que traz para casa fêmeas de todo tipo. Enfim, a casa é maravilhosa, num condomínio de übber-ricos ultracaretas. Por estar em mal estado, inacabada desde a década de 80 e precisando de reformas sinceras, nossa casa é acessível para nossos bolsos, um tremendo achado. Somos os únicos que alugam, os demais são todos proprietários. Portanto não é difícil responder sorrindo aos cumprimentos contidos de nossos sempre bem-vestidos colegas de muro, ao darem de cara com as nossas bermudas velhas e pranchas molhadas: ali nós somos os hippies.
Numa festa de aniversário que aconteceu na casa teve DJ e queima de fogos. Quase deu polícia, deu uma cachoeira de reclamação, culminando com os vizinhos da frente entrando no carro e subindo a serra num sábado à meia-noite, tão incomodados com a nossa folia. Minha cachorra Olga, que em vez de hippie é uma skinhead, foi proibida de pôr as patas no condomínio por comportamento inadequado.
Eis que um dia, voltando da praia, encontramos um bilhetinho de criança sobre a mesa, já que na nossa casa a mesa fica do lado de fora: a sala de jantar tem uma mesa de sinuca. O bilhetinho, com aquela letrinha irresistível, dizia:
Galerinha do Surf e mulheres.
Venham na inauguração do restaurante de Camburi
melhor comida saladinhas. Por favor venham.
A garotinha do vizinho da frente havia arrumado uma mesa e estava ali brincando de restaurante. Deu para ver os pratinhos de plástico com grama e folhas fingindo de salada, copinhos e talheres de brinquedo. Entre uma cerveja e outra, quase aceitei o convite. Mas não.
Porque me veio a imagem dos pais da garotinha apontando para a nossa casa, a cada vez que a música alta ou as risadas ou o cheiro de fumaça ilegal atrapalha o fim de semana deles: é a "galerinha do surf".
Um dos búfalos é o alfa que traz para casa fêmeas de todo tipo. Enfim, a casa é maravilhosa, num condomínio de übber-ricos ultracaretas. Por estar em mal estado, inacabada desde a década de 80 e precisando de reformas sinceras, nossa casa é acessível para nossos bolsos, um tremendo achado. Somos os únicos que alugam, os demais são todos proprietários. Portanto não é difícil responder sorrindo aos cumprimentos contidos de nossos sempre bem-vestidos colegas de muro, ao darem de cara com as nossas bermudas velhas e pranchas molhadas: ali nós somos os hippies.
Numa festa de aniversário que aconteceu na casa teve DJ e queima de fogos. Quase deu polícia, deu uma cachoeira de reclamação, culminando com os vizinhos da frente entrando no carro e subindo a serra num sábado à meia-noite, tão incomodados com a nossa folia. Minha cachorra Olga, que em vez de hippie é uma skinhead, foi proibida de pôr as patas no condomínio por comportamento inadequado.
Eis que um dia, voltando da praia, encontramos um bilhetinho de criança sobre a mesa, já que na nossa casa a mesa fica do lado de fora: a sala de jantar tem uma mesa de sinuca. O bilhetinho, com aquela letrinha irresistível, dizia:
Galerinha do Surf e mulheres.
Venham na inauguração do restaurante de Camburi
melhor comida saladinhas. Por favor venham.
A garotinha do vizinho da frente havia arrumado uma mesa e estava ali brincando de restaurante. Deu para ver os pratinhos de plástico com grama e folhas fingindo de salada, copinhos e talheres de brinquedo. Entre uma cerveja e outra, quase aceitei o convite. Mas não.
Porque me veio a imagem dos pais da garotinha apontando para a nossa casa, a cada vez que a música alta ou as risadas ou o cheiro de fumaça ilegal atrapalha o fim de semana deles: é a "galerinha do surf".
terça-feira, 6 de julho de 2010
A culpa é do twitter.
Tem uma carta do Mário de Andrade, acho, que termina assim: "desculpe pelo tamanho da carta. Se tivesse tempo, teria escrito menos."
O Twitter, com sua obrigatoriedade de 140 toques, nos faz concisos, objetivos, e torna-se um desafio semi-literário não perder o raciocínio tendo que escrever tão pouco. Tenho alguns amigos que se tornaram craques - não por acaso trabalham em propaganda, onde o menor texto geralmente é o melhor texto.
Mas o ponto é que com o Twitter, eu comprimo tanto o pensamento que termino cada quadradinho daqueles exausto. Não sobra nada para escrever aqui. Sem falar que imagino uma pessoa, ao escolher onde perder os 5 minutos relativos ao cafezinho que acabou de buscar na máquina, opte pela variedade que só o Twitter proporciona. Eu ontem passei muitos cafezinhos lendo o blog de uma menina que vive no Canadá que eu conheci via Twitter. Textos deliciosos, sobre o assunto atual dela, que é viver no Canadá.
Mas aquele não é, como este, um blog sobre a esquizofrenia de um indivíduo. Sobre a loucura de tentar viver disfarçado entre as pessoas, ocultando sua identidade real de búfalo e quadrúpede, tentando esconder dos outros a perplexidade, o espanto, o medo a respeito de tanta coisa incompreensível que acontece ao meu redor.
Escrever no Twitter, com toda a escassez de espaço, acaba sendo muito mais libertador que um blog onde não há limite nenhum.
O Twitter, com sua obrigatoriedade de 140 toques, nos faz concisos, objetivos, e torna-se um desafio semi-literário não perder o raciocínio tendo que escrever tão pouco. Tenho alguns amigos que se tornaram craques - não por acaso trabalham em propaganda, onde o menor texto geralmente é o melhor texto.
Mas o ponto é que com o Twitter, eu comprimo tanto o pensamento que termino cada quadradinho daqueles exausto. Não sobra nada para escrever aqui. Sem falar que imagino uma pessoa, ao escolher onde perder os 5 minutos relativos ao cafezinho que acabou de buscar na máquina, opte pela variedade que só o Twitter proporciona. Eu ontem passei muitos cafezinhos lendo o blog de uma menina que vive no Canadá que eu conheci via Twitter. Textos deliciosos, sobre o assunto atual dela, que é viver no Canadá.
Mas aquele não é, como este, um blog sobre a esquizofrenia de um indivíduo. Sobre a loucura de tentar viver disfarçado entre as pessoas, ocultando sua identidade real de búfalo e quadrúpede, tentando esconder dos outros a perplexidade, o espanto, o medo a respeito de tanta coisa incompreensível que acontece ao meu redor.
Escrever no Twitter, com toda a escassez de espaço, acaba sendo muito mais libertador que um blog onde não há limite nenhum.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Desde 70 o Brasil estreia mal em Copas.
Ok, ok, a Coreia do Norte é uma merda.
Mas numa análise retroativa, o jogo ruim de terça não significa nada.
Em 70, tudo bem, goleada de 4x1.
Mas olha aí:
74: 0x0 contra a Iugoslávia;
78: 1x1 contra a Suécia;
82: 2x1 contra a URSS, sendo que 2 pênaltis para os soviéticos não foram marcados;
86: 1x0 contra a Espanha, com gol impedido do Doutor e gol legítimo da Espanha anulado (bola que bateu no travessão e dentro do gol, lembra?);
90: 2x1 contra a Suécia;
94: 2x0 contra a Rússia, com um gol de pênalti.
98: 2x1 contra a Escócia, com um gol contra e uma bola desviada com a mão pelo Dunga;
02: 2x1 contra a Turquia, roubalheira a favor do Brasil;
E, por fim, 06: 1x0 contra a Croácia.
Não serve para nenhum prognóstico, mas confirma que a Seleção sempre sente o peso da camisa no primeiro jogo. E que isso é normal, porque 5 estrelas pesam mesmo.
Mas numa análise retroativa, o jogo ruim de terça não significa nada.
Em 70, tudo bem, goleada de 4x1.
Mas olha aí:
74: 0x0 contra a Iugoslávia;
78: 1x1 contra a Suécia;
82: 2x1 contra a URSS, sendo que 2 pênaltis para os soviéticos não foram marcados;
86: 1x0 contra a Espanha, com gol impedido do Doutor e gol legítimo da Espanha anulado (bola que bateu no travessão e dentro do gol, lembra?);
90: 2x1 contra a Suécia;
94: 2x0 contra a Rússia, com um gol de pênalti.
98: 2x1 contra a Escócia, com um gol contra e uma bola desviada com a mão pelo Dunga;
02: 2x1 contra a Turquia, roubalheira a favor do Brasil;
E, por fim, 06: 1x0 contra a Croácia.
Não serve para nenhum prognóstico, mas confirma que a Seleção sempre sente o peso da camisa no primeiro jogo. E que isso é normal, porque 5 estrelas pesam mesmo.
domingo, 6 de junho de 2010
6 de Junho. Dia D.
Foi o dia em que mudaram o rumo da Segunda Guerra Mundial, com o desembarque na Normandia.
Foi o dia em que eu, dias depois de ter descoberto que tinha câncer, operei.
Renasci, um pouco menos esperançoso e um pouco menos inocente que da primeira vez. Se imagina que passar por isso torna a pessoa mais tolerante e mais feliz, por ter sua segunda chance.
O mundo também renasceu num 6 de Junho, já que ali se definiu que a ameaça nazista não teria chance de se espalhar, como metástases, por outros continentes. Foi uma intervenção cirúrgica precisa e definitiva, como foi a minha.
O mundo não se tornou mais tolerante e feliz por essa segunda chance. Não é o que acontece.
Junto com o susto e com o medo, vem o pragmatismo de quem acorda. De repente você não acha mais que sua vida daria um filme, que você é um personagem querido de Deus, ou essas coisas. Você descobre que as coisas dão errado sim, contra a sua vontade, e que muitas vezes não é uma questão de atitude para que elas voltem a dar certo.
É só acaso. Por acaso as coisas podem voltar ao lugar, a vida pode seguir, e se pode voltar a ser feliz. Apesar de se ter perdido a inocência.
Apesar disso, em 6 de Junho, me sinto agradecido por estar aqui. Assim como o resto do mundo deve estar.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
A maior solidão da minha vida.
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Nessa época de Copa, além de xingar o técnico da Seleção seja ele quem for, somos forçados ao velho balanço das competições passadas. É o típico assunto contagioso, como quando alguém fala do assalto que sofreu ou de uma batida de carro, e os que estão ao redor contam dos seus assaltos e batidas e por aí vai.
Assunto Copa geralmente começa com a de 82. É impressionante para mim a clareza de detalhes dos relatos sobre aquela Seleção, a melhor e mais injustiçada da história. Além de revelar a idade de quem conta, a Copa de 82 é cheia de memórias doloridas e vívidas: o cara vendo o pai chorar, aquele menino na capa do JT. Eu lembro que saí da casa do meu tio onde assistíamos ao fracasso, o churrasco queimando esquecido na churrasqueira, e que a casa vizinha estava em reforma. Monte de areia na calçada, e três fileiras de telhas de barro escoradas no muro. Chutei uma por uma, elas se quebravam com facilidade. Aí meu pai me tocou no ombro - tocou, com delicadeza, veja bem. Me viu ali vandalizando as telhas do vizinho como um hooligan inglês, e reagiu me chamando para entrar no carro e irmos embora.
Foi o segundo momento de maior solidão da minha vida, quebrado pelo toque e pela inédita compreensão do meu pai.
O momento só do título do post foi em 94. Depois de 82 e as três Copas seguintes, ninguém mais acreditava que o Brasil seria campeão novamente. Raí? Dunga? Jogador Zinho? Eis que o Baggio corre para a bola, e isola. Eu nem vi direito o que aconteceu. Levantei correndo da sala, em direção à rua, para avisar a todo mundo que aquele merda toda tinha finalmente acabado.
A porta de madeira que dá acesso à rua se fechou atrás de mim, e eu me espantei com o silêncio lá fora. Na rua não havia sinal de Tetra. Dentro das casas o Brasil inteiro devia estar se abraçando, chorando, tendo infartos. Mas na rua se ouvia o som de fogos e de gritos abafados por paredes. Eu estava sozinho. E sem chave para abrir a porta e voltar para dentro da casa.
Toquei a campainha freneticamente, desesperadamente só. Só depois de 10 minutos alguém escutou e veio abrir.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Morreu o cachorro do Seu Chico.
Meu vizinho de 60 anos tinha um lindo labrador preto, Tufão, que de tão doente precisou ser sacrificado.
O encontrei na rua, ele me deu a notícia entre lágrimas discretas. No cachorro anterior a esse, faz 11 anos, ele havia se prometido nunca mais ter cachorro.
A gente se apega muito ao bicho, depois sofre - me dizia ele.
Eu só consegui pensar no jogo do Corinthians amanhã. Em quantas e quantas mortes eu me prometi não me apegar mais, não perder mais meu tempo com uma idiotice dessas. Futebol? Que importa o futebol?
Aí me dou conta que o Corinthians é a única maioria na vida da qual eu faço parte. Eu torço pelo time, mas muito mais pela torcida. Quero ver os meus manos corintianos felizes, orgulhosos. Crentes refeitos, já que mais uma vez puderam comprovar que a sua fé move montanhas. E, excepcionalmente neste caso, deixarei passar a piada com o tamanho do Ronaldo.
Desejo que o Corinthians garanta a seu Chico um resto de semana feliz. E que o próximo cachorro dele se chame Dentinho.
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