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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O dia em que virei homem.

Em 9 de novembro de 1989 eu tinha 14 anos.

Lembro de estar em casa, deitado no tapete de frente para a TV, esperando o tempo passar depressa para virar adulto e enfim aproveitar as copiosas aventuras que, até ali, não tinham acontecido.

Aí explodiu a vinheta de plantão urgente da Globo, com milhares de câmeras voando em volta do símbolo da emissora e aquela musiquinha das desgraças: "tantantanta tarararam... tantantantan taaaaan....". Não há um estômago humano que não se revire ao ouvir essa musiquinha.

Era para dizer que milhares de alemães orientais estavam se assanhando para cima dos soldados que guardavam o muro. Eu não entendia direito nada daquilo, mas meses antes o pau havia quebrado na China, inclusive com uma das cenas mais publicitárias de todos os tempos, do carinha com o casaco impedindo uma fila de tanques, lembra? Então. Jornalisticamente, todos se preparavam para mais um banho de sangue comunista. Enquanto isso eu, nos meus 14, estava focado em conseguir transar pela segunda vez na vida, porque a primeira tinha sido meio café com leite, e em aprender a tocar guitarra. Só.

O Plantão Urgente voltaria a qualquer momento, intervalo, uns dois comerciais imemoráveis e aí "TANTANTAN TARARARAAAAAM". De novo! Era para mostrar que os soldados alemães, ao contrário dos soldados chineses, não estavam sendo muito militares. Pelo contrário, tinha gente pulando o muro. Pulando?


A tarde seguiu assim, num clima de desentendimento. Não havia internet, TV a cabo, não havia nada. Só a Globo, Alf o ETeimoso e os plantões urgentes, e você tinha que esperar o Jornal Nacional.

Mas aí volta o plantão, e a imagem era a de um carnaval. E os alemães estavam botando para baixo, com martelos, paus, e pedaços de muro contra o muro. E pichando e rindo, gente se abraçava, e o locutor explicava que famílias que estavam separadas há décadas se reencontravam livremente, e um cara vestia o quepe do soldado, e o soldado ria e o abraçava também, todo mundo chorando de felicidade. Eu nunca tinha visto um momento histórico ao vivo. Mesmo sem entender direito o que acontecia, entendi que era para chorar também.

Foi o dia em que eu virei homem, porque eu percebi que fazia parte do mundo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Vermelho e branco.

A turista alemã está sem fôlego. Um pouco por causa do calor de 39 graus, é verdade. Mas psicologicamente sem fôlego, dado o impacto da beleza do Arpoador as 11h da manhã de um sábado. Anos e anos admirando imagens das praias reluzentes, do Cristo sereno e pálido, das bundas pecaminosas do Carnaval não poderiam preparar totalmente uma européia para aquele espetáculo massacrante. Ainda menos uma européia da pequenina e gelada Schielowsee, meia hora distante de Berlim.

"Mein Gott, dieser Ort ist schön" - ela pensa, seu sonho realizado.

O pensamento é a penúltima coisa a passar por sua cabeça. A última é a bala perdida que, viajando verticalmente de cima para baixo, uma hora depois de haver sido disparada da favela do Cantagalo, lhe atravessa o crânio com a velocidade de um trem. O sangue pinga devagarinho, formando pequenos coágulos na calçada quente. Algumas gotas caem sobre as havaianas brancas que ela havia acabado de comprar na Visconde de Pirajá.

Pessoas se aglomeram ao redor do corpo, algumas gritam por socorro, outras cobrem o rosto com as mãos, pensando "que jeito besta de morrer".

Como se algum jeito não fosse besta.



Veio daqui.